Quando estudava Administração, precisava suportar as aulas de Contabilidade que odiava. E isso porque, mesmo curtindo toda aquela lógica incrível, por causa do meu grau altíssimo de distração, nada batia com nada. Mas uma coisa me chamava a atenção: a conta de devedores duvidosos. Me encantava a forma como os contadores haviam solucionado criativamente a questão de dívidas insolventes. Põe na conta de devedores duvidosos e aí pode fechar o balanço.
A conta de devedores duvidosos é como se fosse uma declaração de erro: Errei sim, emprestei para quem não devia, vendi para as pessoas erradas. Assumo o prejuízo e toco em frente. Me ensina minha amiga Doutora em Contabilidade Yara Cintra que isso só funciona se você tiver provisionado antes. Veremos.
Hoje escutei uma voz interior dizendo: Relaxa, põe na conta de devedores duvidosos. Será que seria possível então, criar uma conta de devedores duvidosos existencial?
Estou em Miami, a caminho do Novo Mexico onde vou participar da Conferência comemorativa dos 20 anos do TAOS Institute. A única forma de viabilizar esta viagem foi uma promoção da AA de viajar com 30.000 milhas. Mas isto implicou em dias e dias ligando no setor de reservas, negociando trecho por trecho até conseguir a passagem, e só se fosse parando um dia aqui. Ok, aproveito e faço o guarda-roupa de inverno dos filhos em algum shopping de ponta de estoque, pensei.
Então a lógica foi conseguir um hotel bom e barato perto do aeroporto (meu vôo para o Novo Mexico sai as 6:20 da matina) e de um shopping center. Não queria dirigir – e gastar mais – neste dia, cansada, cheia de compras, etc. Consegui um que anunciava transporte grátis para o aeroporto e para o Mall. Primeiro erro.
Esperei uma hora e o transporte nunca passou. Todos os outros ônibus dos hotéis já tinham passado, mais de uma vez. Finalmente, peguei um táxi que me custou mais caro do que se eu tivesse alugado um carro. E meu hotel ficava numa área onde só se anda de carro. Conclusão, horrível para andar a pé.
Cheguei no hotel na torcida para que houvesse um quarto livre logo de manhã. E tinha. Os quartos ficam livres apenas à tarde, mas a gente poderia conseguir um… Só que… Detalhe: Menor do que o quarto que a Sra. tinha reservado, tudo bem? Sim, claro, tenho desconto? Falar com o gerente. Pensei: Falar com o gerente? Cansada, exausta, jetlegged, não. Meu ser clamava por uma ducha. Quem sabe mais tarde. Segundo erro.
Cheguei no quarto e era um quarto fumante. Mas não era qualquer fumante, era o quarto da associação americana dos fumantes inveterados e compulsivos que-acendem-um-cigarro-no-outro e eles deveriam fazer todas as suas reuniões lá! Só de entrar no quarto a sensação era de que o corpo inteiro estava se impregnando daquele cheiro de cinzeiro sujo. Eca! Driblei o cheiro ruim e tomei um chuveiro. O melhor da minha vida. Terceiro Erro.
De banho tomado, a cabeça mais no lugar, liguei prá recepção. Olha, preciso mudar de quarto, este aqui é fumante e eu não fumo (mais). Eu avisei a Sra. que era fumante. Não, você me avisou que a cama era menor. Avisei sim, e agora a Sra. já usou o quarto, quer falar com o gerente? Caramba, lá vem esse gerente de novo! Não, veja se consegue que alguém passe um bom-ar aqui, ok?
Peguei o transporte do hotel para o shopping às 10:00 da manhã. Detalhe, a volta era feita uma vez por dia às 08:00 da noite! Tá. Comecei a rir sozinha e me veio uma legenda na cabeça: “Em viagem, espere por imprevistos” Primeiro acerto. Eu faço isso! Sempre levo dinheiro a mais e fico em lugares econômicos, justamente para poder viajar com folga, com a sensação de que as despesas extras fazem parte do pacote. O que contadores poderiam chamariam de provisionar. Relaxei.
Também neste momento pensei que o meu estado de espírito era meu, e que não importasse o que acontecesse, com cheiro ou sem cheiro, trocando de quarto ou não, eu escolhia me manter calma e bem humorada. Já estava gastando mais que o esperado, ficando num quarto horroroso e fedido, então que pelo menos meu astral continuasse gostoso e cheiroso. Segundo acerto.
Cheguei ao shopping animada. Ele era ótimo e fiz todas as compras que precisava. Terminei às 16:00 e fui de táxi (mais barato pq era perto) para o hotel. Terceiro Acerto.
Tinha deixado as janelas do quarto escancaradas, o ventilador ligado, e quando entrei, bum! aquele cheiro horroroso ainda estava lá. Meu maior medo era não conseguir dormir, porque não conseguia me acostumar. Ligo e falo com uma nova recepcionista. Explico. Vou mandar a governanta, ela diz. Governanta bate na porta, eu abro. Tudo bem? ela pergunta: Mais ou menos, sente esse cheiro… Não há nada que eu possa fazer, a Sra. sabia que era um quarto fumante e aceitou. Olha, eu sou brasileira, viajei a noite toda, to cansada, entendo que cometi um erro, mas será que você pode fazer algo por mim? Posso trocar as toalhas (Não me pergunte por que). Tá.
Dormi superbem. Na verdade, desmaiei e acordei sozinha no horário adequado. O cheiro não fez diferença. No fim, queria descer e reclamar. Pedir desconto, fazer valer meus direitos, não deixar passar em branco, provar pra mim que sou assertiva, que sou digna de justiça, etc. etc. Mas quando olhei para aquele gerente trabalhando as 5:00 da manhã, todo sorridente, pensei, relaxa, essa conta vai para devedores duvidosos…
Minha conclusão? Existem infinitos jeitos de viver. Para todos os seres humanos. Não preciso ser sempre igual, posso ser um dia mais assertiva e enérgica outro dia mais doce e nem aí. Isso faz parte da infinidade de possibilidades que ser humano propicia.
Na minha contabilidade pessoal, perdi dinheiro, pouco, mas ganhei sabedoria. Não briguei, não humilhei, respeitei todas as pessoas. Fui capaz de relevar. Não consegui o que queria e com todo o respeito, isso vai para o TripAdvisor… Quarto acerto.