O alcance do que pensamos e fazemos
é limitado pelo que deixamos de notar.
E por deixarmos de notar que deixamos de notar
pouco podemos fazer para mudar,
até que notemos
como o deixar de notar
forma nossos pensamentos e ações.
R. D. Laing
Sombra, o que é?
Cada um de nós contém um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso cotidiano e um eu oculto e noturno que permanece amordaçado a maior parte do tempo.
Emoções e comportamentos negativos — raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas — ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo nosso eu mais apropriado às conveniências. Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a sombra pessoal, que continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria de nós.
Muitas forças estão em jogo na formação da nossa sombra e, em última análise, determinam o que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores e amigos criam um ambiente complexo no qual aprendemos aquilo que representa comportamento gentil, conveniente e moral, e aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso.
A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao eu e aquilo que pertence à sombra. Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não. Alguns permitem a ambição financeira, a expressão artística ou o desenvolvimento intelectual; outros, não.
Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo eu e exilados na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana. No entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos. Esse escuro tesouro inclui a nossa porção infantil, nossos apelos emocionais e sintomas neuróticos bem como nossos talentos e dons não-desenvolvidos.
O encontro com a Sombra
O inconsciente não pode ser consciente; a Lua tem seu lado escuro, o Sol se põe e não pode iluminar o mundo todo ao mesmo tempo, e mesmo Deus tem duas mãos. A atenção e o foco exigem que algumas coisas fiquem fora do campo visual, permaneçam no escuro. Não se pode olhar em duas direções ao mesmo tempo.
Por essa razão, em geral vemos a sombra indiretamente, nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais seguro observá-la. Quando reagimos de modo intenso a uma qualidade qualquer (preguiça, estupidez, sensualidade, espiritualidade, etc.) de uma pessoa ou grupo, e nos enchemos de grande aversão ou admiração — essa reação talvez seja a nossa sombra se revelando. Nós nos projetamos ao atribuir essa qualidade à outra pessoa, num esforço inconsciente de bani-la de nós mesmos, de evitar vê-la dentro de nós.
Essa projeção é como disparar uma flecha mágica. Se o destinatário tem um “ponto fraco” onde receber a projeção, então ela se mantém, Se projetamos nossa raiva sobre um companheiro insatisfeito, ou nosso poder de sedução sobre um atraente estranho, ou nossos atributos espirituais sobre um guru, então atingimos o alvo e a projeção se mantém. Daí em diante, emissor e receptor estarão unidos numa misteriosa aliança, como apaixonar-se ou encontrar o herói (ou vilão) perfeito.
A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não-desenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o eu e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra… até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.
Para proteger-nos da maldade humana que essas forças inconscientes de massa podem representar, dispomos de uma única arma: maior conscientização individual. Se deixamos de aprender ou se deixamos de agir com base naquilo que aprendemos com o drama do comportamento humano, perdemos nosso poder, enquanto indivíduos, de alterar a nós mesmos e, assim, salvar o nosso mundo. Sim, o mal estará sempre conosco. Mas as conseqüências do mal irrefreado não precisam ser toleradas.
“Uma grande mudança na nossa atitude psicológica está iminente”, disse Jung em 1959. “O único perigo verdadeiro que existe é o próprio homem. Ele é o grande perigo e estamos, infelizmente, inconscientes dele. Nós somos a origem de todo o mal vindouro.”
Hoje podemos dar um renovado significado psicológico à idéia de poder individual. Os limites para a ação de confrontar a sombra estão — como sempre estiveram — no indivíduo.
A aceitação da sombra
O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o nosso senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das nossas atitudes conscientes e as nossas profundezas inconscientes.
Um relacionamento correto com a sombra nos oferece um presente valioso: leva-nos ao reencontro de nossas potencialidades enterradas. Através do trabalho com a sombra (expressão que cunhamos para nos referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um relacionamento criativo com a sombra), podemos:
- chegar a uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem realmente somos;
- desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na nossa vida cotidiana;
- nos sentir mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos sentimentos e atos negativos;
- reconhecer as projeções que matizam as opiniões que formamos sobre os outros;
- curar nossos relacionamentos através de um auto-exame mais honesto e de uma comunicação direta;
- e usar a nossa imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o nosso eu reprimido.
A auto análise, a reflexão e o feedback são rituais de renovação pelos quais a personalidade da sombra pode ser percebida e assimilada, reduzindo assim seus potenciais inibidores ou destrutivos e liberando a energia vital positiva que estava aprisionada. Lidar com a sombra e o mal é, em última análise, um “segredo individual” e é uma experiência tão poderosa que pode transformar a pessoa como um todo.
Adaptado de “Ao encontro da Sombra” de CONNIE ZWEIG