
Ximena & Maturana nos ensinam que existem tantas realidades quanto existem seres humanos. E que cada um vê o mundo através de seus filtros. Como se cada um tivesse um par de óculos montados pela sua história, família, crenças, preconceitos, enfim, tudo que interfere com a nossa interpretação do que vemos. É o que eles chamam de critérios de validação. Então não há como duas pessoas verem o mundo da mesma maneira. Cada um vê o que vê segundo seus próprios critérios.
Então não existe realidade? Não existe só uma realidade objetiva, existem um montão de possibilidades de realidades subjetivas carregadas dentro de cada um de nós e que se manifestam na medida em que vivemos nosso viver no mundo.
Então brigamos! Brigamos por que não entendemos isso. E queremos convencer o outro que nossa visão da realidade é a correta, a verdadeira.. Então olhamos para a figura acima, e uns vêem o pato, outros vêem o coelho. Problema. O desenho é o mesmo e estamos enxergando coisas diferentes? Hum, vem aqui, ó.. Tá vendo a orelha do coelho, bem ali? Ah.. prá mim aquilo era o bico do pato! Então, conversamos!! E trocamos pontos de vista. Eu te peço: tente ver o que eu estou vendo.. Olha o lugar onde estou, o por que estou vendo assim… Como diriam os Beatles: Try to see it my way.. E vice versa.
E de repente, você e eu vemos!! E o mais lindo, o mais incrível e sensacional de tudo, o que faz as relações humanas absolutamente únicas e deliciosas, é que depois que eu vir o seu ponto de vista e você vir meu, não somos mais os mesmos, somos seres mais ricos e expandidos, por que eu não vejo mais um pato nem você vê mais um coelho, nós dois vemos um patocoelho!

Sunday Spiral #2
Originally uploaded by Manas Dichow
Outro dia tive um sonho. O sonho de um beijo entre dois homens que eu amo muito. Um filho e um pai. Quando acordei, estava feliz. Mas o que aquele sonho queria dizer?
Comecei a refletir que primeiro de tudo seria um desejo, um desejo meu que eles fizessem seu viver assim, comigo, de um jeito alegre, íntimo e amoroso. Depois, pensei, pode ser uma profecia, um sonho premonitório. Aqueles dois seres iriam um dia viver aquela cena tão gostosa? E por fim, pensando Jungianamente, dois homens, um jovem e um adulto, nessa harmonia plena de brincadeira, afeto e leveza. Como Jung diz que tudo no sonho é uma representação de nós, pensei que poderia ser meu animus, meu lado masculino, aparecendo como um selo amoroso entre gerações. Como se todos os homens que trago dentro de mim estivessem naquele momento fazendo as pazes comigo. Legal, né?
E hoje pensei, por que a gente não consegue enxergar nossas experiências acordados da mesma forma? Por a gente acha que o que acontece conosco tem só uma explicação? Rasa e superficial? Então me veio a imagem da espiral (que não é nada original, pelo amor de deus).
Fiquei pensando que a gente pode sempre expandir a reflexão da experiência. Ir olhando camada por camada, decifrando-nos através dessa escada que sobe sem fim. Como eu vivo meu viver? Como me observo vivendo meu viver? E assim por diante…
Então, parece que é muito mais difícil fazer isso sozinho! Para a gente poder aprofundar o entendimento da experiência é necessário – ou pelo menos mais interessante – fazê-lo com o outro. É.. e aí, quando aparece o outro com uma idéia a nosso respeito que pode realmente enriquecer nosso auto-conhecimento, o que acontece? A gente não ouve, hahaha. A gente não consegue ouvir por que é diferente do que conhecemos, talvez aquela pessoa esteja uns três degraus acima na escada. E a gente morre de medo de perder aquela mínima segurança que temos a nosso respeito.. Enfim, conviver é tão importante por isso, por que nos propicia o contato com outras dimensões de nós mesmos. Outras dimensões, umas por cima das outras, se expandindo infinitamente.
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biologia cultural [3] Comments

Originally uploaded by *melby*
Esta semana estivemos de volta em Curitiba, na Unindus, para mais uma semana presencial com Ximena D’Ávila e Humberto Maturana, em nosso curso de Biologia Cultural. Bom, primeiro de tudo, aquele sentimento de privilégio. Depois, alegria por reencontrar meus colegas de jornada, e mais alegre em ver como a gente está se transformando. Cada vez mais as pessoas vão falando, participando, se abrindo, colocando suas dores, sentimentos íntimos, e vai-se criando o espaço relacional de confiança e ternura tão buscado. Viver no amar. Onde as pessoas surgem legítimas. E são vistas, ouvidas. Inteiras. Isso com um grupo de 70 pessoas é um super desafio. Especialmente prá nós, amadores, que ainda passamos o tempo todo julgando… Revisamos e aprendemos conceitos novos. Então registro aqui algumas falas que eu acho que merecem não ser esquecidas. Fica um pouco reducionista, mas já faz parte do “Maturana for Dummies”, ok?
“Nós somos o tema, o caminho e a resposta.”
“Se quero estar onde quero estar, com as pessoas que quero estar, então tudo tem solução.”
“A certeza é uma emoção, a obediência também está na emoção.”
“Não se pode ajudar o outro sem cair na onipotência. O que se pode fazer é gerar as condições para que o outro se ajude a si mesmo.”
“A família se constitui no prazer de viver juntos.”
“Não somos transformadores do mundo lá fora. Mas do mundo aqui dentro.”
“Humildade passa pela transformação de si mesmo e aí vira uma frente de onda.”
“Critérios de validação são modos de vida.”
“As explicações são como as chupetas para os bebês.”
“O cansaço é um conflito de emoções.”
“Recursividade sempre origina algo novo. Ela é natural nos seres humanos.”
“O desejo é algo que orienta minha ação. A expectativa tenta orientar o que não depende de mim.”
Enfim, salamandras, seguimos assim humildemente, sabendo que podemos refletir e enxergar o mundo de um jeito novo a cada encontro, se quisermos. Não seria essa esperança que nos mantém até podermos estar juntos novamente?
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amar 1 Comment

Os corpos não entendem a luz que acontece quando as almas se encontram,
não tem importância.
Encontros de alma são tão raros que as pessoas se esquecem de como deveria ser
A gente viaja no calor do aconchego um do outro,
Na alegria da compreensão simples
Na delícia da cumplicidade incondicional
Na doçura das palavras.
Os corpos não entendem, mas eles registram
Mesmo sem entender, eles de alguma forma sabem
Que essa naturalidade que flui assim, como se nada fosse,
É o único jeito.
É tão sutil e delicado que não pode ser buscado
Porque não pode ser descrito
Só vale depois de encontrado.
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viver [4] Comments

Bom, dor é fundamental.
Primeiro prá gente se proteger do mal.
Do mal físico, por que dói.
Quando queima dói, quando bate dói, quando rala, dói.
E dor é sinal de que aquilo não faz bem. Que alguma coisa não está certa.
Então a gente vai ver, vai cuidar. Do machucado, da doença, do mal.
Do mal espiritual, também por que dói.
Dói, a gente chora, fica triste, amuada, quieta.
E a gente está sempre procurando o bem estar.
Então quando dói o coração, nunca é por muito tempo, por que a gente arranja um jeito de aliviar a dor.
O melhor jeito é parando para refletir.
Catando a bicha pelos chifres, olhando lá no fundo dos olhos dela e perguntando:
O que raios você está querendo me dizer?
E com muito treino, com muita paciência, quietude e silêncio, às vezes a gente consegue ouvir a voz da dor.
E aprender com ela. E se transformar e se abrir mais prá poder ser mais feliz.
E o engraçado é que a gente acaba agradecendo à dor por nos ter ajudado a ver.
Mas às vezes, a gente acha que não vai conseguir encará-la de frente.
Que vai se desmilinguir toda, partir em mil pedaços. Aí começa a sofrer.
Sofrer é o esforço de evitar a dor. Negar a dor. Fingir que ela não existe.
A gente pode ficar anos, vidas assim, nessa cegueira de nós mesmos.
E nossa energia é sugada pelo sofrimento, que vai crescendo, crescendo, monstro!
Então a dor é fundamental.
Prá nos proteger dos monstros que vivem dentro da gente.

U2- “Love is Blindness” for CWD
Originally uploaded by chicagokristi
Estamos mesmo e sempre beirando o caos. Internamente e externamente. E a única luz que nos mantém salvos das trevas é a luz do amor de uma mulher por seu marido cego e vulnerável. Ela não perde a visão – ou a capacidade de amar – e conduz seus companheiros de solidão pelos túneis sombrios da incivilidade e devastação humanas. É capaz de matar para conservar a vida de suas amigas mulheres subjulgadas por um ditador bárbaro. É capaz de perdoar uma sofrida infidelidade, cuidar da criança, achar comida e finalmente a liberdade. Então o amor é a única cura para a humanidade? Sim. Até o amor do cachorro que lambe a cara dela quando a encontra perdida no meio da rua.
E depois o amar é a cola que leva um grupo de amigos acolhidos para sua casa retomar uma nova civilização. Nova e inovadora, onde as pessoas se vêem apesar de cegas.
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love
Originally uploaded by electricnerve
Romance é espuma
Vida sem romance é seca
Romance é ilusão perfumada e úmida.
A gente vive inventando romance
Nos livros, nos filmes, na TV
E só por que ele está tão em falta no cotidiano
a gente entrega nosso romance pros personagens tomarem conta
e faz de conta que vive feliz.
Mas quando ele acontece…
Será que é preciso abrir espaço pro romance na vida?
Ou ele flui, se mistura nos nossos interstícios?
E quando você percebe, já está vivendo mais sensual, divertido, leve.
E aí dá-se conta: Ah! Então viver é delicioso assim?
Mas, como espuma, romance é muito frágil.
Romance pode ser perdido.
Pode escorrer, desvanecer.
Então, como espuma, romance também some pelo ralo.