Por que grandes encontros entre pessoas demandam jeitos diferentes de conversação?
Como criar condições para que grandes grupos de pessoas conversem?
Como iniciar a mudança em grande escala por meio da conversação?
O que motiva as pessoas conectadas em sistemas humanos a mudar?
O que fazer para criar convergência na multidão?
Essas perguntas povoam as idéias de psicólogos organizacionais como David Cooperrider e Ron Fry, idealizadores e praticantes da Investigação Apreciativa (Appreciative Inquiry), metodologia utilizada para orientar os trabalhos durante o Global Forum de Educação para sustentabilidade. A exaustão do modelo tradicional de conferência – aula – modelo mental autocrático que divide os que sabem e os coloca no palco e os que não sabem e os coloca na platéia, e a necessidade de modelos empresariais de decisão mais democráticos, onde todo o sistema participa, abraça as decisões, fazendo acontecer, reduzindo resistência à mudança e aumentando o entusiasmo, pede metodologias como esta, que conecta diretamente as ações à inteligência da rede como um todo.
Especificamente para um encontro como o Global Forum, cujo objetivo é gerar cooperação em grupos de trabalho autônomos dedicados à educação para um mundo sustentável, a metodologia propõe um processo de quatro etapas que se inicia em profundas entrevistas individuais em dupla, criando um espaço de confiança e envolvimento pessoal. Este primeiro passo – chamado descoberta – faz com que as pessoas desvistam seus papéis institucionais e se abram para uma participação integral no movimento. Por meio do resgate de momentos positivos de suas histórias, descobre-se qual é a essência positiva do grupo, o que nutre e dá vida àquela comunidade. Nesse Forum começamos perguntando sobre a vivência de liderança de mudança inovadora trazendo à mão a iniciativa de mudar, seguida pela recordação de alianças bem sucedidas para recordar as características pessoais necessárias para esta realização.
Motivadas pela nova percepção de valor e alicerçadas em suas forças, as pessoas naturalmente se voltam para o futuro, e empoderadas, sonham com algo brilhante, fora do comum e inovador. Inicia-se a segunda etapa do processo – o sonho – que no caso do Forum criou um cenário para daqui a 10 anos, no qual a compreensao humana a respeito da sustentabilidade aprofundou-se, gerando mudanças positivas nos negócios e na sociedade como um todo, graças às ações dos participantes do Call for Action. Os grupos apresentaram suas visões uns para os outros em subgrupos de 40 pessoas, gerando um clima intenso de energia e entusiasmo.
Em seguida, o momento é de identificar iniciativas que possam enriquecer projetos e idéias individuais, facilitar esforços colaborativos intersetoriais e projetar maneiras de unir toda comunidade em torno de inovações educacionais que aumentem a grandeza de um mundo sustentável. Aterrissar o sonho. Por os pés no chão e criar caminhos para que ele se materialize. Para isso, os participantes escolheram e desenvolveram, em seus grupos, ações que gostariam de ver concretizadas. Os porta-vozes dos grupos apresentaram em plenária enquanto a equipe de co-facilitadores as registrava em flip-charts. Em seguida, cada participante votou em 4 iniciativas que mais gostaria de ver realizadas. Os votos forão contados e as idéias que receberam 20 votos ou mais foram organizadas em um open space para que os participantes pudessem explorar as idéias e escolher em qual decidiriam se engajar.
Esta fase – Desenho – é pautada pela pergunta: “O que podemos fazer amanhã, que fará uma diferença ainda maior do que qualquer outra coisa que tenhamos imaginado ou feito no passado?” As três iniciativas mais votadas foram: CRIAR LEI QUE INCENTIVE A RESPONSABILIDADE DOS FABRICANTES PELO PÓS CONSUMO, MUDANÇA CURRICULAR E FORMAÇÃO DE DOCENTES PARA SUSTENTABILIDADE e OPERAÇÃO BOICOTE – MIDIA EDUCACIONAL PARA O CONSUMO RESPONSÁVEL. Formados novos grupos, agora por atração a uma idéia comum, trabalhou-se em uma “Afirmação Aspiracional”, um parágrafo que descreve o que o grupo mais quer atingir com esta idéia de projeto. Os grupos deram feedback positivo uns para os outros baseando-se nas perguntas: “Por que eu acho essa idéia boa?” e “O que faria para fortalecê-la ainda mais?”
Munidos e fortificados pelas sugestões de melhoria, os grupos reescreveram suas afirmações.
Chegamos ao destino, momento no qual passa-se do projeto para a implementação. Co-criando um futuro preferido, é hora de partir prá ação. Começa-se com um brainstorming de “comos” e daí para a prototipagem. Transformar uma idéia em algo tangível. Os projetos vão se construindo literalmente e tomando forma. Novamente reunidos em agrupamentos, os grupos apresentaram seus projetos uns para ous outros, já agora mais consistentes, com o que, como, quando, e quem deve ser envolvido para o seu sucesso. Era o fim deste encontro. O movimento continua. De forma autônoma, os grupos irão se auto-organizar para levar adiante suas idéias, aspirações e projetos para um mundo mais sustentável.
Assim entendemos a coerência da escolha da metodologia da Investigação Apreciativa para orientar um forum sobre educação, cooperação e sustentabilidade. Diálogo, aprendizagem compartilhada, escuta, igualdade de voz, liberdade, autonomia e protagonismo pautaram a sustentabilidade das relações humanas durante todo o encontro. Até o próximo!