Fui à exposição Duke Lee – Baravelli – Fajardo – Nasser – Resende – na Sala Maria Antônia da USP. Minha mãe me convidou. Ela, Cacilda Teixeira da Costa, é PhD em história da arte e especialista na obra de Wesley Duke Lee, de quem é grande amiga e com quem convivo desde criança. O conceito da exposição é mostrar de que forma ele influenciou esses seus 4 alunos com quem conviveu dos anos 63 a 68 em São Paulo.
O tema da exposição me levou para estas reflexões da Bio Cultural: “Então qual é a dinâmica constitutiva da aprendizagem? Aprender é sempre um resultado da própria deriva de transformações na convivência, aprendemos com ou sem educação, aprendemos com ou sem ensino. E conforme for a convivência será o que aprendemos.”
Wesley teve seus discípulos em gratidão ao que ele aprendeu com Karl Plattner, com quem trabalhou por 2 anos. Nas palavras de Wesley: “Num tempo muito curto pintava exatamente igual a ele. Você não ia ver a diferença e isso é uma coisa muito significativa no aprendizado. Fazia assim, primeiro porque tinha profunda confiança nele, não discutia individualidades. Creio que não premeditava isso, mas era um homem muito instintivo, e como eu era seu discípulo mesmo, foi assim que me ensinou: ficando ao seu lado, vendo, ouvindo.”
Fiquei encantada com essa falta de medo da imitação. Amar é imitar. Aprender é imitar. Depois de um tempo imitando Plattner, Wesley comenta que seu estilo emergiu: “Aos poucos é que meu mundo foi entrando. Comecei a fazer têmpera sobre papel e lentamente a influência foi saindo. Mas era muito marcante, acho que ela ainda está presente neste quadro que acabo de fazer.”
Assim, parece que mesmo imitando, a gente imita um pouco diferente. Surge a autonomia. Querendo fazer igual, manter nossa congruência com aquele meio em que estamos, nosso estilo, nosso jeito se revela. Como dizem os biólogos culturais, vamos vivendo um espaço experiencial no qual vamos nos transformando de modo que esse espaço gera as possibilidades de autonomia até que chega um momento em que somos pessoas que vão agir através de si. Mesmo entrelaçados com outros, vamos dizer sim ou não através de nós e agüentar as conseqüências. E isso é o essencial da educação, não as técnicas, não as práticas nem as teorias.
Com seus próprios discípulos, Wesley também seguiu seu não-professor: “Ninguém pode dizer que eu era professor, porque não era. O que eu estava afirmando? Nada. Aceitei-os por uma dívida pessoal que tinha com meu mestre e por insistência deles. A dívida era a seguinte: o tempo que Plattner dedicara a mim era impagável. O pagamento seria formar um outro; formei quatro…”
Segundo os curadores da exposição de hoje, “Para eles a noção de ‘ensino’ compreendia inúmeras estratégias que em absoluto podem ser resumidas, nem apenas à prática do desenho por si só e muito menos no maneirismo de uma forma de fazê-lo. O estímulo a uma arte que ‘não se ensina, se aprende’ e que depende também de uma generosidade recíproca.”
Então somos todos artistas, de diversas áreas, para quem o aprender surge na relação generosa com o outro no amar. E foi isso mesmo que Wesley aprendeu e passou adiante: Confiança, respeito pelo outro, generosidade…
Então, grata por essa aprendizagem, me despeço mandando um beijo carinhoso prá mama, artista que me ensinou a ver.
*Os depoimentos de Wesley foram extraídos do primeiro livro da Cacilda sobre o Wesley, editado pela Funarte no Rio de Janeiro em 1978.








