Esta página registra meu diálogo com outros biólogos culturais. Inauguro a página por meio de uma conversa com Luiz Algarra sobre dor e sofrimento. Outros comentaristas são mito bem vindos.
LUIZ: Sofremos porque explicamos uma experiência como sofrimento. Creio que a dor é sempre uma experiência e o sofrimento a explicação desta experiência. Então podemos sofrer mesmo sem sentir dor! Podemos estar muito bem acompanhados, em um lugar excelente, ouvindo boa música e em total segurança, mas se a nossa explicação sobre isto não dá conta de nossas expectativas, então sofremos. Se a nossa explicação para o que vivemos não corresponde às expectativas que temos para aquele momento, então nos entristecemos. E enquanto não mudarmos nossa explicação continuaremos a sofrer. Nossa estrutura tenta se adaptar a esta situação, se transforma e se altera. Nossa Plasticidade se realiza para nos levar de novo ao bem-estar. Se não damos conta da adaptação necessária podemos até mesmo ameaçar nossa própria vida!
Alguns elementos de nossa estrutura, que não tem a plasticidade necessária para se adaptar, podem simplesmente se romper, causando nossa destruição. Mas acho que isso não significa que estamos sofrendo por causa desta nossa falta de plasticidade! Estes nossos limites de adaptação não são monstros, são apenas nós mesmos. Em nosso sofrimento distinguimos estas coisas em nós, mas quando estamos no bem-estar nem lembramos deles. Então eles só existem porque fazemos estas distinções. Não existem em si mesmos. Não são monstros em nós! Nós os fazemos monstros quando os identificamos e os responsabilizamos pelo nosso sofrimento. Talvez fazer isso mude nossa explicação sobre as coisas, e então o sofrimento desapareça. Mas citando, Caetano Veloso: “Ou não!”.
FERNANDA: Seu comentário me despertou mais uma reflexão. Faz todo sentido que as explicações que damos à experiência, quer dizer, o como descrevemos a experiência, sejam determinantes para nosso sentir. Me sinto mal por que há conflito entre o que penso do que deve ser minha experiência e a experiência que experimento em minha corporalidade, que sinto.
Então, a explicação é uma ilusão. Os monstros que criamos dentro de nós seriam as ilusões? Percepções de faz-de-conta que inventamos para nos ajudar a conservar algo que de outra forma seria impossível conservar?
LUIZ: Vivemos o que vivemos e distinguimos tudo em nosso viver a partir dos critérios de validação que temos e mantemos em nosso viver desde nossa infância. Validamos cada experiência a partir destes critérios, e não podemos percebê-los, porque para nós são como a água para o peixe.
Então temos uma experiência e distinguimos isto como uma percepção, apenas nossa próxima experiência poderá confirmar se o que vivemos foi uma ilusão ou uma percepção. Não há como identificar a diferença entre ilusão e percepção a cada experiência que vivemos, por isto não podemos dizer que existe uma realidade. Para nós, a realidade está sempre um passo à nossa frente, num campo de possibilidades que a física quântica arregaça as mangas para explorar!
Os monstros que criamos dentro de nós são explicações que mantemos porque elas mantém algo que desejamos preservar! O que seria?Manter-se perguntando sempre é um modo de encarar essa coisa toda, creio eu.
Quando estamos na certeza, chegamos ao fim!
FERNANDA: Bom, se a explicação pode ser uma ilusão, certamente (sem certeza, claro) o sofrimento também, né? A gente está ali, naquele sofrimento, sentindo-se a última das últimas e de repente, um pensamento, um acontecimento transforma nossa percepção. Quebra-se o aquário, a água vai toda embora e resta o peixe dando-se conta que tem guelras e não pulmões! Então sofrer é uma escolha? Escolhemos sofrer por que queremos conservar algo? Ou escolhemos conservar algo que não nos traz bem estar e isso nos faz sofrer? Ou ainda, nada é em si, a situação é a mesma, mas a forma como lidamos com ela é que define nosso bem estar?
Bom, deixa ver se eu explico melhor o que quero dizer sobre os monstros. Prá mim, eles são partes, facetas da nossa personalidade com as quais temos dificuldade de entrar em contato, de conversar. Sei lá, meu lado malvado, por exemplo. Lembra do Monstros SA? Aquela metáfora é genial. Esses monstros se alimentam do nosso sofrimento, ou seja, da nossa incapacidade de olhar o medo de frente. E eles nos aprisionam. Como eu quero ser sempre uma boa menina, evito tudo que me faça lembrar o lado B. Posso até entrar prá igreja e pregar contra a maldade humana, por exemplo. Ou ficar metendo o pau em todo mundo que já tropeçou nesse aspecto de si mesmo.. Morro de medo de ser desmascarada. Algo em mim está preso a essa crença de que se eu for malvada meu mundo se acaba.. De novo o peixe na água..







Outubro 20, 2008 at 7:00 am
Tudo que é dito é dito de um observador a outro que pode ser ele ou ela mesma. Então te percebo dizendo algo sobre CERTO e ERRADO, sobre ser BOM ou ser MALVADO e vejo que estas distinções estão apenas em você! Como o quadro do PATO e do COELHO onde a ótica nos permite ver ora um, ora outro. Afinal, que verdadeiramente está ali, o PATO ou o COELHO? Depende do que o observador trouxer à mão. Essa expressão “trazer à mão” cunhada por Humberto Maturana dá conta da distinção feita pelo observador entre PATO e COELHO. A partir de algum critério de validação o observador vê no quadro, biologicamente enxerga um ou outro.
Estes critérios de validação se formam em nossa longínqua infância enquanto ainda estamos na indistinção do AMAR. Mergulhados em um estado original quando nascemos na confiança biológica de sermos cuidados, protegidos e amados, não temos como observar uma caneca, por exemplo, e distinguí-la do resto do universo, de tudo mais que é “não-caneca”. Neste momento em nossas vidas tudo é tudo e nada é nada, ou algo assim.
Mas são tantas as experiências a que somos expostos, tantas variações de situações, humores e toda sorte de aventuras que aos poucos surge, recursivamente em cada um de nós, um pequeno repertório pessoal de distinções. Passamos a viver o que vivemos então a partir destes critérios. O beijo de nossa mãe é “não-caneca”, por exemplo. Incrível, não é mesmo?
Então te ouço a partir do que distingo como um teu critério de validação onde as pessoas podem ser BOAS ou MALVADAS e percebo em você a emoção do MEDO de que todos te vejam a partir destes mesmos critérios como “não-BOA”! E aí está um esforço que você conserva para que ninguém que te observa faça esta distinção. Este esforço é mantido e estará presente enquanto seu critério de validação entre BOM e MALVADO existir para você como uma distinção. Surgem então as explicações para essa coisa toda e estas explicações se parecem um bocado com uma criança explicando porque em sua memória recursiva estes critérios devem estar sendo mantidos desde a época em que você aprendeu a distinguir MONSTROS e NÃO-MONSTROS, por exemplo.
Não me pergunte como posso te dizer algo que te faça sair deste “imbloglio” todo pois não sei, afinal nada disto está em mim, tudo isto está exclusivamente em você!
Mas se quiser perguntar algo busque uma pergunta que te coloque em reflexão livre sobre como você faz o que faz, e não sobre o que você é. Pergunte e pergunte de novo. Troque a pergunta mais uma vez e outras tantas tanto quanto puder. Mergulhe nas infinitas questões que norteiam as múltiplas realidades criadas por cada observador a cada instante. Deixe-se levar pelo fluxo cósmido de realidades múltiplas que determinam a própria existência da vida além das distinções.
Entre no labirinto caleidoscópico dos mil olhos de cada uma das divindades que observam nosso viver. Descubra como o PATO vê o COELHO e como o COELHO vê o PATO! E divirta-se vendo seus monstros se tornarem seus amigos, igualzinho no MONSTROS S.A. É isso aí minha amiga, Esopo não dá conta de um viver reflexivo, Lewis Carol se aproxima mais da brincadeira toda!
Enquanto reflete, veja uma versão da ilusão PATO/COELHO aqui.
Outubro 22, 2008 at 10:02 am
Então maninho, estava mesmo usando o exemplo da distinção da maldade como uma metáfora.. Mas se você viu tudo isso em mim, está visto. Só posso agradecer os sábios conselhos.. Sinceramente, quanto a essa visão fragmentada e polarizada entre bem e mal, mocinhos e bandidos, me acho mais como Sandra de Sá: Ninguém aqui é puro anjo ou demônio.. E já que é assim, não tem como não perguntar: Será que se eu estivesse tão distante desse monstro, afogada neste imbloglio, se ele fosse tão meu inimigo mesmo, seria capaz de citá-lo assim, tão tranquilamente, no meu blog?
Vale lembrar que cada um lê o que lê, vê o que vê, segundo seus próprios critérios de validação, certo?
De qualquer forma adorei o exemplo, por que você fala de esforço: o esforço para criar um viver que disfarça outro viver que está por baixo e subjacente. Isso é sofrimento! Em vez de sentar em cima – como diria Ximena – da dor, do medo, da rejeição – inventamos uma geléia de morango para por em cima da m.., lembra?
Acabo de receber isso de um amigo, sem querer, vindo nos ajudar..
Transformação
“Não deveríamos manter os vícios confinados dentro de nós como prisioneiros. Prisioneiros estão sempre planejando escapar. Se transformamos os vícios em nossos amigos, eles podem nos ajudar. Por exemplo, a energia necessária para a teimosia é quase igual a da determinação, só que a primeira é negativa e a segunda é positiva. A alma aprende a transferir tal energia. Raiva torna-se tolerância. Ganância vira contentamento. Arrogância muda para
auto-respeito.”
Ken O’Donnell, New Beginnings, Brahma Kumaris Ishwariya Vishwa Vidyalaya,
Mount Abu, 1996
Novembro 3, 2008 at 4:49 am
Já li duas vêzes esta sua última postagem, e gostei muito, Mas nada me provocou para continuar dialogando. Talvez esta conversa já tenha chegado ao seu ponto de realização! Para não te deixar esperando, como um exnadrista que olha o relógio enquanto o outro pensa, deixo esta mensagem agradecendo a conversa livre, aberta e franca. E fico na escuta aguardando o próximo assunto, pode ser?
Junho 20, 2009 at 5:57 am
Querida Fernanda
Inspirada pelo nosso encontro, fui te procurar na web e achei esse Apreciando. E mais inspiração aconteceu: entrei na minha revista preferida, li um artigo de Barbara Marx Hubbart sobre a regenopausa da mulher, que muito me tocou…grata…